
Crianças com perturbações do espetro do autismo e perturbações da alimentação
25 de outubro de 2021
Primeiro: O que são as perturbações da alimentação?
São perturbações associadas ao processo de alimentação: desde a tentativa de pegar no alimento com a mão até à sua digestão. Repetem-se em todas as refeições e afetam negativamente a saúde da criança e a sua relação afetiva/social com os pais, devido à sobrecarga emocional e ao stresse sentidos pela família quando uma criança recusa comer. Podem ser divididas clinicamente em três tipos:
1. Perturbações da ingestão alimentar e da deglutição em crianças nas três fases da deglutição: oral, faríngea e esofágica.
Os sintomas manifestam-se através de dificuldades na sucção/amamentação, mastigação, trituração, formação do bolo alimentar e/ou controlo do mesmo na boca, regurgitação de alimentos pela boca ou pelo nariz durante a refeição, engasgamento ou asfixia às refeições, incapacidade de terminar a refeição devido ao cansaço, ganho de peso insuficiente e subida periódica da temperatura corporal. É frequentemente diagnosticada na fase de lactente por um especialista em fala e deglutição, sendo delineado um plano terapêutico adequado.
1. A criança pode apresentar perturbações digestivas que se traduzem em dores contínuas, gases, cólicas, problemas de dejeção, choro e gritos que acompanham o processo de alimentação ou de evacuação. É frequentemente diagnosticada na fase de lactente pelo pediatra, podendo ser encaminhada para gastrenterologia e cirurgia pediátrica.
2. Perturbações comportamentais/sensoriais da alimentação, que são as mais comuns na criança com perturbação do espetro do autismo.
Caracterizam-se por não terem origem orgânica (a criança não sofre de uma doença médica), apresentando, no entanto, um conjunto de comportamentos negativos e de hipersensibilidade relacionados com a hora da refeição e com o ato de comer em geral. O diagnóstico e a intervenção são realizados por um especialista em fala e deglutição, um terapeuta ocupacional e um especialista em intervenção comportamental aplicada.
Qual é a relação entre as perturbações da alimentação e a perturbação do espetro do autismo?
46% a 89% das crianças no espetro do autismo apresentam perturbações da alimentação
Este facto é reforçado pelas próprias características da perturbação do espetro do autismo que potenciam as perturbações comportamentais/sensoriais da alimentação, nomeadamente, entre outras:
- Repetição
- Medo de experimentar coisas novas
- Perturbações sensoriais (quer por excesso quer por défice)
- Dificuldades na comunicação e na interação social
- Reforço de padrões alimentares negativos
- Interesses predominantemente restritos
Quais são as características da perturbação comportamental/sensorial da alimentação na criança com perturbação do espetro do autismo?
- Escolha de um determinado tipo/textura ou consistência e fixação na mesma (geralmente preferem hidratos de carbono e rejeitam legumes e fruta)
- Insistência em ingerir alimentos de uma marca específica / com determinado aspeto / com uma disposição específica
- Ritmo desadequado de ingestão dos alimentos
- Padrões alimentares perturbados (de natureza obsessiva)
- Recusa de novos tipos de alimentos
- Rituais desadequados na hora da refeição
- Duração excessiva da refeição (superior a meia hora)
- Peso não saudável (baixo peso severo ou obesidade excessiva)
A dieta sem glúten e sem caseína ajuda a resolver os problemas comportamentais/sensoriais do meu filho?
Até ao momento, não existem estudos com evidência científica sólida que recomendem esta dieta para atenuar os sintomas das perturbações sensoriais/comportamentais associadas à perturbação do espetro do autismo e/ou que comprovem a sua eficácia em crianças com o espetro do autismo (que não apresentem alergia ao trigo e/ou ao leite). Contudo, importa salientar que, caso a família pretenda seguir este padrão alimentar, encorajamo-la a consultar um nutricionista clínico e a seguir as suas orientações.
Em que nos beneficia a intervenção de um especialista em fala e deglutição e/ou de um terapeuta ocupacional e/ou de um especialista em intervenção comportamental aplicada?
- Aceitação de tipos de alimentos previamente rejeitados
- Tolerância em comer algumas trincas de alimentos que a criança não aceitava de todo
- Aceitação de novos alimentos pertencentes aos vários grupos alimentares
- Aumento da quantidade de comida que chega ao estômago e é digerida
- Aumento da quantidade de porções engolidas em vez de cuspidas
Que estratégias terapêuticas posso adotar para apoiar o meu filho, e serão eficazes?
- Disponibilize à criança suportes visuais para lhe clarificar a sequência dos momentos da refeição e o que dela se espera, reforçando a rotina alimentar
- Utilize uma linguagem simples para instruir e evite a complexidade (frases simples de 3 a 4 palavras, apoiadas por imagens)
- Ofereça escolhas à criança para que sinta que tem o controlo, seja na escolha de um reforço e/ou na escolha do alimento a experimentar
- Aplique o princípio da progressão sensorial terapêutica e não tenha pressa
- Apresente reforços do agrado da criança para assegurar a manutenção da motivação
- Utilize o Princípio de Premack: a criança realiza uma atividade não preferida (comer uma garfada da comida estabelecida) e de seguida é recompensada com uma atividade preferida (brincar com o seu brinquedo favorito durante um minuto)
Conselhos práticos para pais e educadores:
- Repita a atividade até que a criança se familiarize com ela e a antecipe, evitando surpresas.
- Ajude a criança a iniciar a refeição e a encadear as atividades motoras.
- Estabeleça os seus objetivos de forma gradual: por vezes, o primeiro objetivo consiste apenas em a criança tolerar estar na mesma divisão que a comida de que não gosta.
- A criança deve sentar-se corretamente na cadeira, com uma base firme sob os pés (os pés não devem ficar suspensos no ar), promovendo a sensação de estabilidade e segurança.
- Colabore com o terapeuta ocupacional para conhecer as abordagens terapêuticas destinadas a lidar com as perturbações sensoriais/comportamentais.
- Esteja atento à criança e procure identificar os sinais de tensão ou de crise antes que aconteçam, tais como: abrir os dedos, fugir e comportamentos agressivos, contendo-os ao dar-lhe a oportunidade de se expressar através da comunicação, seja oralmente ou através de cartões no caso de crianças não-verbais.
- Após 6 a 8 semanas, comece a apresentar os alimentos familiares noutros formatos ou aproxime-os de alimentos de que a criança não gosta.
- Procure sempre generalizar as competências adquiridas a múltiplos contextos, por exemplo: atingir o objetivo de comer um determinado alimento tanto em casa como na escola.
- Não tenha pressa em ver resultados e recorde-se de que foi a tartaruga, lenta e perseverante, quem ganhou a corrida. ☺
Elaboração: Nora Al-Ghosoon - Especialista sénior em fala, linguagem e deglutição
Referências:
- Picky Eaters in the Preschool Classroom: 7 Tips for Teachers, Melanie Potock, MA, the ASHA Leader Live
- 3 Tips for Parents to Help Kids With Autism Eat, Melanie Potock MA - the ASHA Leader Live, 2013
- When Your Eyes Are Bigger Than Your Stomach: Use of Visuals in Feeding Therapy. for Children with Autism Spectrum Disorders JoAnn Barton, MS, CCC-SLP ,Franciscan Hospital for Children
- Feeding and The Child with Autism Spectrum Disorders, Jeanne Marshall & Pamila Dodrill, Queensland Children’s Medical Institute
- Sensory Processing and Impact on Feeding, Sue Delport OT-MSc. November 2012
- Carruth and colleagues (1998)
- Fischer and Silverman (2007)
- Mascola and colleagues (2010)
Publicado originalmente em árabe. Esta versão em português foi produzida com tradução assistida por IA; o original em árabe permanece como referência.





